Arquivo do dia: 23/07/2012

POSIÇÃO OFICIAL DA RESGATE SANTISTA SOBRE A DISSIDÊNCIA

MANIFESTO

Antes te houvessem roto na batalha que servir ao povo de mortalha

Aos sócios do Santos

A Associação Movimento Resgate Santista foi fundada em 2001 com o propósito de dar ao Santos uma gestão democrática, transparente e profissional. Lutou contra o golpismo, o compadrio, a tirania. Lutou contra aqueles que se serviam do Santos para interesses menores, contra o desmando e a irresponsabilidade.  Mesmo derrotada em eleições, manteve firme seu compromisso com a democracia, transparência e profissionalismo.

Em memorável eleição em 2009, logramos enterrar com o voto majoritário dos sócios do Santos uma era de continuísmo. O projeto da Resgate, gestado em 10 anos de luta, reunia um amplo espectro de santistas em torno de uma tarefa clara: criar as instituições que devolvessem o Santos à soberania dos sócios, democrático, forte, vencedor, herdeiro de 100 anos de glórias mas com os olhos e o coração postos em 2112.

Este processo é longo, difícil e não linear. Como em qualquer organização, há divergências de prioridades, tempo ou ênfase. Há inevitáveis questões pessoais. Às vezes, estas divergências acumulam-se, companheiros de longa data põem-se em campos que parecem opostos, palavras mais duras levam a confrontos.

É neste contexto que queremos nos dirigir aos sócios do Santos para esclarecer as divergências que existem no interior de nosso Movimento.

A natureza de nossas divergências

É irônico que a dissidência atribua ao descontentamento com a reforma administrativa como a base de nossas divergências. Nada mais distante da realidade. A Resgate é a artífice da profissionalização do Santos. Desde sempre.

É incorreta a afirmação da dissidência que a Resgate deseja construir um poder paralelo ou defenda uma ingerência na gestão administrativa do Santos. A Resgate apresentou aos sócios uma chapa liderada por um Resgatista histórico e ex-presidente da Resgate em 2009 e novamente em 2011. A Resgate propôs aos sócios e logrou aprovar um Estatuto fundado em um Comitê de Gestão representativo e colegiado , um Conselho Deliberativo atuante e uma área profissional eficiente , focada na excelência no futebol e no relacionamento com os sócios.

A Resgate sempre defendeu que o Comitê de Gestão deve ter autonomia, nos marcos do orçamento aprovado e no âmbito das instituições do Santos. A contrapartida desta autonomia é o dever permanente de prestar contas no sentido mais amplo: aos sócios, representados pelo Conselho e pelas distintas correntes de opinião e movimentos que militam  no Santos; aos torcedores, organizados ou não; à imprensa; às comunidades onde vivemos. É este o sentido de transparência que advogamos desde 2001: explicaremos nossos acertos mas não esconderemos nossos erros; julgaremos as críticas pelo seu mérito e não por quem as endereçou.

Mais, a contrapartida desta autonomia é o dever de aceitar o contraditório, a crítica, a controvérsia. É a paciência de explicar as decisões tomadas sem recorrer à soberba de acreditar que quem vive o dia a dia toma sempre a decisão mais sábia. E, sabemos todos, autonomia na gestão não é cheque em branco.

Ao contrário do que afirma a dissidência, estamos seguros que o Comitê de Gestão – muitos deles experientes, com inequívoca trajetória democrática –  não deseja apoio incondicional.

Se um irmão não pode chamar a atenção do outro quando este se equivoca, quem o fará?   Como corrigir rumos se companheiros são instados a calar? Quem advertirá contra riscos de aparelhamento ou correntes construídas à sombra da máquina administrativa se não houver tolerância à crítica? Como proteger a pluralidade e o debate vigoroso, franco e aberto se  a concordância é recompensada e a crítica é penalizada? Queremos uma nova geração de santistas acovardada , com medo de pronunciar-se para não ser considerada oposicionista ?  Por que a dissidência julga que pode falar em nome do Comitê de Gestão?

Ademais, de que casos concretos estamos falando? Das críticas (brandas , registre-se) ao caótico atendimento aos sócios no tema dos ingressos? Da controvérsia travada no Conselho quando da aprovação das contas? Quando faltou apoio da Resgate ao Comitê de Gestão? Como poderia a Resgate não apoiar  um Comitê de Gestão que é majoritariamente formado de resgatistas históricos? Quando faltou apoio concreto da Resgate à governabilidade no Santos?

Mais grave contudo é quando a idéia abstrata de governabilidade ganha contornos concretos e transforma-se em risco de excesso de poder.
 A dissidência concentra as presidências das comissões de Estatuto e Sindicância e do Conselho Fiscal. Resgatistas ilustres e honrados, foram votados pelos conselheiros para representarem o Conselho e por extensão os sócios. E, nestas cadeiras, não se espera deles apoio incondicional ao Comitê de Gestão. Espera-se deles que funcionem exatamente como contrapeso ao Comitê de Gestão. Não por que o Comitê  de Gestão fez ou fará algo inadequado; antes por que a independência de critério e de ação está na gênese de sua função. Naquelas cadeiras e enquanto durar seu mandato, eles representam a vontade genérica, abstrata, ex ante dos conselheiros de criar anteparos e contrapesos aos desígnios do Comitê de Gestão.

Esta construção institucional não visa a afetar a governabilidade ou criar um poder paralelo. Ao contrário, estabelece limites às ações do Comitê de Gestão. E estes limites não perguntam se o Santos está dirigido pelo companheiro Luiz Alvaro ou por outro santista de reconhecida trajetória democrática. Nossa tarefa como resgatistas é construir instituições que independam das convicções das pessoas ou de seu histórico, ainda que impecável. Por que um dia o Santos será – como já foi –  governado por Comitês de Gestão com tentação de concentrar poder, evitar a controvérsia, transformar o debate livre de idéias em encenação vazia.

Que papel tem a Resgate?

É falaciosa e autocrática a idéia que um Santos forte requer uma Resgate fraca , porque uma Resgate forte atrapalharia a gestão do Santos.  Um Santos forte requer correntes de opinião organizadas, que contribuam para o debate no clube, que canalizem a opinião dos sócios e que formem , no embate de idéias, as futuras lideranças.  Queremos que os santistas que não são conselheiros só participem da vida do clube na época eleitoral?  Um Santos forte requer uma organização  que torne o clube maior e melhor. Se restringirmos nossa organização ao período eleitoral,  os santistas viverão o Santos de maneira mais fluida, mais focada no curto prazo, mais personalizada. Será mais difícil construir consenso, compartilhar idéias, reforçar na prática cotidiana os valores que nos unem. Quem perde é o Santos. Sem uma organização forte , frustraremos sócios com quem firmamos compromissos políticos. Não é  exatamente contra este silêncio que lutamos durante anos?

Um Santos forte requer uma torcida pujante, grande , medida em milhões. Deste grupo, esperamos ter sócios ativos , medidos em dezenas de milhares. Deste contingente, um grupo menor, oxalá medido em milhares,  se interessará pela vida institucional do clube. Como fazê-lo se não houver movimentos abertos, amplos , organizados, com vida permanente?  Destes distintos movimentos , centenas concorrerão à eleição do Conselho Deliberativo. E, entre os conselheiros da corrente majoritária, elegeremos uma dezena de pessoas para o Comitê de Gestão e para os postos mais importantes do Conselho e das comissões que iremos com o tempo construir.

Como elaboraremos nossa lista de candidatos se não temos uma organização aberta que dê oportunidade a todos de influenciar os rumos do Santos? É  bom para o Santos se a lista de candidatos ao Conselho for  decidida em âmbito privado fora do confronto aberto de idéias?   

Se a direção eventual da Resgate não está cumprindo com sua obrigação, é dever dos companheiros descontentes dar concretude às críticas e propor as  mudanças. A Resgate tem uma larga história de democracia interna . Somos pouco menos de 300 resgatistas : chamemos uma Assembléia para tratar das divergências e construir a unidade de ação. 

Que papel tem o Conselho?

É crucial que o Conselho Deliberativo tenha vida orgânica, que não seja extensão de qualquer  Comitê de Gestão, mesmo o mais preparado, mesmo aquele formado por resgatistas de primeira hora. Será que não compreendemos que é nossa tarefa fortalecer os mecanismos de contrapeso, sobretudo quando nós mesmos recebemos um mandato majoritário dos sócios? Recebemos este mandato para construir um Santos mais forte, perene, com instituições reais e não de fachada , que resista às maiorias eventuais, sobretudo quando muito populares, sobretudo quando o time estiver bem em campo.

As tarefas do Conselho Deliberativo vão muito além de fiscalizar o Comitê de Gestão.

É tarefa do Conselho , por definição mais amplo e mais representativo do conjunto dos sócios , construir e debater nossa ambição de longo prazo. É tarefa do Conselho cuidar para que as instituições do Santos sejam pautadas na democracia e  na transparência. É tarefa do Conselho decidir as políticas de remuneração e os limites de endividamento . É tarefa do Conselho definir as políticas de conflito de interesses e partes relacionadas, que teria evitado que uma questão importante e sensível em qualquer organização tivesse sido levantada de maneira incorreta e mal educada na última reunião . É tarefa do Conselho acompanhar a execução orçamentária. É tarefa do Conselho organizar-se em comissões que espelhem as prioridades do Comitê de Gestão:  orçamento, relacionamento com sócios , arena, relacionamento com investidores, formação de atletas , comunicação e marketing, finanças. É assim que funciona um legislativo bom e  atuante. Por que seria diferente no Santos? Por que seria interpretado como poder paralelo ou ingerência na gestão?

Um apelo à unidade

Nossas divergências não são inconciliáveis. O Santos perde se Resgatistas históricos, que ajudaram a construir um movimento vitorioso buscam outros caminhos. O Santos perde servido se a dissidência ignorar as tarefas orgânicas que se apresentam para o Santos agora e não usar sua capacidade e energia para consolidar as instituições internas do Santos. Não precisamos – e tampouco quer o Comitê de Gestão – um debate amorfo, pro forma, uma pantomima com aparência de controvérsia.

Lamentamos profundamente a saída de nossos companheiros, que esperamos possa ser revertida. A Resgate é produto de uma história concreta  e de seus compromissos com os milhares de santistas anônimos que , na derrota e na vitória, sempre acreditaram que a Resgate encarnava a democracia , a transparência e a esperança de uma gestão profissional .

Democracia não se constrói com apoio incondicional. Não é ordem unida, não se funda na obediência e no silêncio obsequioso. Democracia se constrói com tolerância no debate, com instituições sólidas que funcionem como um farol para correção de rumos, com a convicção que contrapesos e opiniões divergentes fazem bem para o todo e para as partes. Democracia é administração institucional de conflitos e nunca sua supressão.

Nossa tarefa é entregar às próximas gerações um Santos muito melhor do que recebemos. Estamos dando passos importantes nesta direção e será, sabemos todos,  um longo e tortuoso processo. Todos os santistas que subscrevem os valores de democracia, transparência e profissionalismo são imprescindíveis.  

Apelamos à dissidência que retorne a sua casa. A bandeira da Resgate tremulará , ainda que rota, mais forte.

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O Blog DNA Santástico, na figura de seu mantenedor Edmar Junior, é membro da Associação Movimento Resgate Santista.

Edmar Junior

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